Você entrega seus rascunhos pra máquina todos os dias e chama isso de produtividade. Era exatamente esse rascunho que treinava o seu olho.
Essa troca já foi medida, com número e publicação científica. O caso veio de um lugar sem nenhuma relação com trabalho criativo: salas de colonoscopia na Polônia.
Dezenove médicos na Polônia
Entre 2021 e 2022, quatro centros de colonoscopia na Polônia colocaram inteligência artificial na sala de exame. O sistema marca na tela, em tempo real, o pólipo que o olho humano deixaria passar.
Dezenove endoscopistas trabalharam nesses centros no período. Gente experiente, mais de duas mil colonoscopias cada um. Um grupo de pesquisadores mediu o desempenho deles nos exames feitos sem a máquina, antes e depois de ela entrar na rotina. O resultado saiu em agosto de 2025, na revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology.
Antes da IA entrar na rotina, esses médicos encontravam adenomas em 28,4% dos exames feitos só no olho. Meses depois, no mesmo exame sem assistência, a taxa tinha caído pra 22,4%. Mesmos médicos, mesmo procedimento. Seis pontos a menos, um quinto da capacidade de detecção.
Os autores chamam isso de deskilling, a perda de habilidade pelo desuso. O estudo é observacional, mede associação, não prova causa, e os próprios autores pedem cautela na leitura. Mas o que se revela é difícil de ignorar: a máquina assumiu a parte repetitiva do criterioso olhar analítico, e o olho que passou décadas sendo treinado por essa repetição perdeu o fio em meses.
E a queda só apareceu quando alguém mediu.
O que exatamente eles perderam
Aquilo que caiu seis pontos tem nome. É o critério do olhar: a parte do profissional que decide o que fica e o que sai. Que olha duas versões parecidas e sabe qual serve. Que sabe onde o trabalho está errado antes de conseguir explicar por quê. Podemos chamar essa camada de critério, a infraestrutura de pensamento que organiza como nós julgamos.
Tem uma pergunta que separa o que é seu do que é da ferramenta, em qualquer ofício: quando você troca de programa, de processo, de modelo, o que continua com você?
O software envelhece, o método muda, e o seu critério atravessa todas essas trocas. A ferramenta é a luz que entra. O critério é o prisma que reparte: troca a lâmpada, troca a vela, troca o sol, um bom prisma reparte qualquer luz na mesma ordem de cores.
Só que prisma não nasce pronto. Nasce vidro bruto, e vira prisma corte a corte, com alguém olhando cada face. O olho de um endoscopista se lapidou assim, em milhares de exames feitos no braço. O nosso olho também: fazer, olhar, refazer, jogar fora, decidir o que fica. A milésima escolha entre duas versões parecidas é o que te deu o olho que hoje escolhe rápido. As repetições eram chatas. Eram elas que estavam te lapidando. Quem assistiu Karate-Kid, sabe.
A conta que ninguém marcou
Agora volta pro seu trabalho.
A máquina já faz as suas repetições hoje. Você pede e ela devolve as variações, refaz o rascunho, entrega a alternativa. A parte trabalhosa e chata, a que você sempre quis terceirizar, a máquina assume de boa. E a conta que ninguém marcou é essa: a parte repetitiva era a parte que lapidava.
Os médicos da Polônia tinham o prisma pronto, décadas de corte, e o fio começou a cair mesmo assim. Quem está começando hoje, sem nunca ter feito as repetições na unha, corre um risco pior: nunca chegar a virar um prisma, e ficar eternamente como vidro bruto.
Mas vidro bruto também é transparente. Essa é a diferença cruel. A luz passa, o trabalho sai, parece que está tudo certo. Só que vidro não reparte a luz em cores, não separa o que serve do que só parece servir. A pessoa entrega o dobro e enxerga metade, e nem percebe, porque o que ela perdeu era justamente a parte que a faria perceber.
Esse é o erro silencioso da nossa época: confundir o que você entrega com o que você sabe julgar. A velocidade da entrega vem da ferramenta. O critério vem de você. Na Polônia deu pra medir a diferença em pontos percentuais. No seu trabalho, ninguém está medindo ainda.
A pergunta que eu não vou responder
Eu uso a máquina pra produzir.
Se você escreveria essa frase, você terceiriza a repetição todo dia. E tudo bem, desde que bem feito. Não dá pra recomendar que as pessoas larguem a ferramenta e voltem pro braço por pura nostalgia. Rejeitar a máquina não lapida olho nenhum, e ninguém vai desligar um sistema que acha o pólipo que o olho do médico deixaria passar.
Mas tem uma pergunta aqui que é mais importante:
Se as repetições eram o que lapidava o critério, e a máquina faz as repetições agora, como é que um novato de 2026 forma o olhar?
Eu não tenho a resposta (e desconfiaria de quem diz que tem).
O que eu tenho é uma aposta, um palpite. Existe um jeito de usar a máquina em que cada entrega dela aprimora seu prisma, e existe um jeito em que cada entrega dela danifica seu prisma. Os dois parecem idênticos no momento em que acontecem. Essa diferença é assunto de um post futuro.
Por hoje, fica a reflexão: das repetições que você vem terceirizando, quais estavam treinando o seu olhar? E como você mantém esse olhar afiado?
Lembrou de alguém enquanto lia? Compartilha, e vamos despertar mais olhares atentos e afiados até que isso se torne um hábito.
Fontes
Romańczyk, M.; Mori, Y. e colegas, Endoscopist deskilling risk after exposure to artificial intelligence in colonoscopy: a multicentre, observational study. The Lancet Gastroenterology & Hepatology, 12 ago 2025. Quatro centros na Polônia (set 2021 a mar 2022), 19 endoscopistas experientes (2.000+ colonoscopias cada): a taxa de detecção de adenomas em exames sem assistência de IA caiu de 28,4% (226 de 795) antes da adoção da IA para 22,4% (145 de 648) depois. Queda absoluta de 6 pontos, relativa de 20%. Estudo observacional: mede associação, não prova causa. thelancet.com
Release oficial da publicação, com os números e as falas dos autores: EurekAlert, 12 ago 2025. eurekalert.org/news-releases/1094223
IBM, What is Generative AI? ibm.com/think/topics/generative-ai
Dois possíveis caminhos pra você seguir quando achar que deve:
No PROMPT ZERO eu ensino a parte prática dessa história: dirigir a máquina no trabalho sem entregar o seu olho junto.
No QUASE VERDADE você aprende a criar o seu clone com IA do jeito certo.
Eu sou o Marcel Serrano. Vinte anos em campos visuais: ilustração, estampas, murais, tatuagens, identidade de marca. Hoje construo os sistemas que fazem a decisão criativa rodar com critério em vez de achismo.
Escrevo, do lado de quem cria, sobre a transição que a IA abriu no campo criativo.
A IA cuida da entrega, a direção continua sua.




